Thursday, March 20, 2008

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"Time is that old, bald, cheater...", Ben Jonson (11/06/1572 - 06/08/1637)

Saturday, November 17, 2007

Procuro Memórias

Busco, procuro e vasculho
por cantos e recantos recônditos,
onde em cada sombra, cada lembrança se encontra,
todos os “eus” e todos os “tus”.

Busco, procuro e vasculho,
sem, na verdade, achar ou descobrir o que quero encontrar,
uma luz no meio das tuas sombras,
um “tu” no meio de tanto “eu”

Lembro e relembro cada sombra, cada sorriso, cada lágrima,
e lembro-te e relembro-te de cada “eu” e cada “tu”,

declamando o “nós”.

Thursday, November 15, 2007

Porque falo?


Falo, comunico, divago...
Será que digo algo que valha a pena?
Ninguém está por perto para ouvir...
Será que isso importa?

Lanço palavras para o ar
à espera que este me escute.
O melhor dos ouvintes não te fala,
não te demonstra que te compreendeu ou sequer que ouviu
mas está sempre lá, está sempre onde nós o queremos,
quando nós precisamos, para nos ouvir.

Desisto de tentar organizar o que digo, escrevo ou penso.
Para quê?
Mesmo que tudo rimasse,
mesmo que o texto tivesse um ritmo cadente de chuva caindo numa pétala,
mesmo que até fizesse sentido... teria mais significado?

O melhor dos ouvintes é aquele em que não precisas de pensar nele,
nem de lhe rogar que te escute, ou que simplesmente te ajude a falar.
O melhor dos ouvintes é aquela parcela tão dentro de nós que nos é estranha.
O melhor dos ouvintes não existe.
Então porque é que lhe falo?

Falo-lhe por não ter cara que me mostre se gostou ou não do que ouviu.
Falo-lhe por causa de vontades infantis de falar para o ar, para as paredes, para mim mesmo.
Falo-lhe porque tudo o que me rodeia pode escutar,
só tenho é que falar não por palavras, mas por pensamentos.
Não tenho que lhe ver a cara, basta-me imaginá-la.
Não tenho que ouvir a sua resposta, basta ouvir-me a mim mesmo.

Mas então porque é que lhe falo?

Sunday, November 04, 2007

Silêncio...


Silêncio… O silêncio choca-me, estorva-me, sufoca-me. Que é feito da panóplia de vozes gritando, chorando, chamando por pais, filhos, irmãos e inimigos? Onde está o clamor de armas, de rocha a fender-se? Não quero pensar no que ouvi, aterroriza-me o que virei a ouvir, aflijo-me por nada agora ouvir.
É olhando em volta que concluo: será possível lutarmos tanto por algo tão efémero? Meses, anos, séculos de labor e suor em campos, em vidas feitas de trabalho, família e satisfação… tudo se esfuma numa miríade de mal entendidos e de boatos.
No que agora vejo como um imundo monte de entulho, foi outrora o meu querido lar. Será possível só ter decorrido uma semana desde o início desta guerra? Num dia de trabalhos e de tédio escuto um anúncio da guerra… da “nossa guerra” embora ainda esteja para descobrir o que isso significa. Seguiu-se assim uma confusão de sons e de ruídos, mas não o da enxada na terra, o de vozes gritando produtos e preços, nem o de bêbados rindo desalmadamente sem motivo algum, ou de alguma criança rindo por todos os motivos deste mundo: era o som de camiões chegando com tropas, o choro de mães berrando pelos seus filhos condenados a matar ou a morrer, o soluço de jovens a quem a infância está preste a ser brutalmente tirada.
Num par de dias lojas foram devassadas, transformadas em quartéis e outros baluartes de guerra; igrejas profanadas deixaram de abrigar ou confortar crentes perdidos para tornarem-se em macabros arrumos das sobras da guerra, sejam eles mortos ou nem por isso; casas deixaram de parte a intimidade do lar para serem meros refúgios medíocres, becos onde inocentes se escondem pelo bem da sobrevivência, onde só o sentimento de claustrofobia e medo impera.
“Mas há razões para alegrarmo-nos!”, dizem os soldados. “A guerra acabou! Ganhámos! Podemos regressar às nossas vidas, reconstruir o que foi destruído, reencontrar velhos amigos perdidos, reunir famílias desfeitas! Ganhámos!”
Murmúrios aumentam de volume, espalham-se pela plateia mortificada, ferida, estupefacta. Podemos reconstruir as nossas casas, mas sobre escombros de sonhos passados desfeitos. Podemos reencontrar velhos amigos perdidos, mas estes encaram-nos com olhos lânguidos, mortos, leitosos, mesmo os sobreviventes. Mas ainda podemos reunir as nossas famílias!!! Ainda podemos ver os nossos entes queridos! Ainda podemos sussurrar-lhes um breve adeus frente a frente quando há uma semana atrás eles nos teriam, respondido com um “Até breve.”. Ainda podemos oferecer uma última carícia nas suas caras pálidas e frias aos nossos filhos e esperar que eles ainda façam aquela careta e digam que já não são nenhumas crianças. Mas alegremo-nos pois podemos reunir as nossas famílias!
Ouço novas coisas. O clamor de armas foi substituído pelo bater incessante de pás e enxadas na terra, escavando e revolvendo terra devastada para abrigar familiares e amigos. Vozes que antes apregoavam preços hoje chamam por entes perdidos. O riso abandonou estas paragens, acompanhou a partida dos bêbados e das crianças em busca de sítios mais seguros. No crepúsculo, o silêncio é senhor de tudo. Mas ele perdeu o toque de paz ou harmonia de antigamente. Tornou-se sufocante.
Tento esquecer o desespero que ouvi nas vozes dos moribundos, aterroriza-me a possibilidade de vir a ouvir quem mais morreu ou desapareceu, aflijo-me por não ouvir nenhuma das velhas vozes minhas conhecidas. O silêncio atormenta-me, esmaga-me, comprime-me. O silêncio é soberano à passagem da guerra. O silêncio realça que nada voltará a ser o mesmo, nem na vitória… nem na derrota. O silêncio é senhor de tudo.


Tuesday, September 05, 2006

Verdade...



Aquele momento fatídico de que todos falamos mal e que todos tememos, mas que constantemente marca presença ao longo da nossa vida até o derradeiro desenlace...
Aquele simples instante em que a verdade nos parece um camião a atropelar-nos, um lento mas insistente cerco...
Recentemente o pai de um amigo meu morreu após quase dois anos de tormento devido a um cancro. Nada de que ninguém não estive à espera para alguém que já não conseguia sair duma cama... uma sombra...
Encontramo-nos nesse dia.... e após uma manhã de altos e baixos... essa meu amigo partiu para onde não queria ir, mas que também não queria faltar. Aquando a sua ida, apercebi-me do jipe que o esperava: um BMW, último modelo... e então o pensamento mais irritante me ocorreu e não me abandonou durante o resto do dia: o desgosto, a morte, é um pau de dois bicos... com ela vem sempre um luxo despropositado.
"Ninguém morre acompanhado, nem assim o vive. Todos vivemos sozinhos e assim morremos. Ninguém acompanha ninguém para a morte. Ninguém morre acompanhado, nem assim o vive."

Friday, August 04, 2006

Tipicamente Tuga: Turistas e... guias?



Vim recentemente a reperar num factor sobre o qual já pensava em comentar há uns tempos mas tive que esperar até o... "observar de perto".
O turista tuga é, basicamente, o melhor exemplo de turismo puro que o mundo já viu: planeia árduamente viagens fabulosas e fantásticas, combina tudo ao pormenor com o grupo com que vai viajar e com a sua agência de viagens, faz inúmeras entrevistas a possíveis guias, trata da papelada toda antes de partir, não esquece os seus animais de estimação e pede a um familiar que lhe vá alimentar o chihuahua chamado Sanzão e um rato moribundo a que carinhosamente apelidou de Faísca... adiante... despede-se de todos os familiares e amigos que não vão com ele e faz-lhes inveja, realçando todas as paisagens e monumentos maravilhosos que vai visitar.
Chega o dia da partida: no aeroporto perde-se e lamenta não ter trazido o protector solar e só ter arrumado a mala nessa mesma manhã. Chegando ao Check-in apercebe-se que deixou o bilhete em casa e há que obrigar o resto do grupo a esperar por ele enquanto vai buscá-lo. Entretanto perdem o avião.
Após todos estes problemas e uma espera de mais de 8 horas pelo vôo seguinte, chegam ao país de destino. Instalam-se no hotel que a agência escolhera previamente dizendo k é o melhor da cidade.
Nos dias seguintes irão efectuar as tão esperadas visitas a tudo quanto é sítio. Levantam-se as 5, 6 da manhã para poderem aproveitar bem o dia (no meio de imensos resmungos e insultos ao sacana que lhes ligou para o quarto a dizer que era hora de acordarem!!!! onde já se viu tal coisa...), tomam um pequeno-almoço mal cozinhado e insosso que mesmo assim consegue pôr metade do grupo KO (incluindo o guia) nas suas camas pelo resto das férias. Arranjado o guia suplente, chegam à primeira aldeia que irão visitar. As mulheres entram logo em debandada em direcção à loja mais próxima sem se darem ao trabalho de avisar os outros. Os homens lá vão ver o monumento visto a equipa local de futebol não prestar para nada e aí descobrem que é preciso pagar uma quantia exorbitante para entrar. O guia entretanto aproveitou a "debandada" para ir para o café mais próximo beber umas boas canecas de cerveja antes que a visita acabe como bom tuga que é.
Ao fim do dia , após uma demorada e complicada procura por todos os elementos do grupo que se espalharam por todo o lado, os turistas tão completamente lisos por causa da entrada e das compras fúteis das mulheres, enquanto que o guia está completamente bêbado e diz esperar que o dia seguinte seja tão fascinante como esse.
Os dias seguintes correm na mesma linha. O turista tuga descobre que todos os monumentos que ele planeava visitar fazem parte de "passeios facultativos" em que é preciso pagar para vêr, o guia nunca está presente visto ou ficar na camioneta a fumar ou dirigir-se logo à casa-de-banho mais próxima devido "ao almoço do dia anterior que estava cheio de molhos esquisitos e que não fez nada bem ao estômago". Há ainda o despertar de madrugada em que todos se dizem aguentarem e que irão dormir apenas quando a visita acabar... passado 5 minutos estão na camioneta de nariz a apontar para o céu e de boca escancarada enquanto fazem o maior chiqueiro a ressonar, impedindo o motorista de ouvir a sua versão estrangeira da Ágata.
No final chega a Portugal a dizer que a viagem foi maravilhosa, que aprendeu imenso sobre a cultura nativa e que adorou o grupo (com quem andou pegado por causa de dinheiro "gamado" injustamente numa suecada). Só se lamenta de se ter esquecido de que a máquina não tinha rolo e como não arranjou nenhum lá não trouxe nenhuma foto (quando na verdade não as tirou por ou estar a dormir ou a pagar "passeios facultativos").
P.S. Desculpem-me por não ter postado mais cedo só que ultimamente pouco tenho estado em casa e como tal foi-me impossível. Mas como consegui ir à Grécia consegui arranjar as bases para este post portanto comentem ;)
P.P.S. A imagem consiste em todas as compras de um turista tuga após um longo e delicioso dia a comprá-las nas férias.
Abraço!

Monday, June 12, 2006

Coca-Cola e patriotas


Esqueçamos as apresentações, as formalidades, os prós e os contras de um conhecimento prévio entre remetente e destinatário.
A súbita febre de patriotismo que corre Portugal é basicamente, usando uma comparação estúpida, como uma lata de Coca-Cola do McDonald's: o conteúdo é o que supostamente importa, mas este fica oculto sobe uma imagem superficial de propaganda, comércio e marketing. Exemplifiquemos: o anúncio da Galp, o hino... perdão... o conjunto desritmado de vozes e... "música"?... que em vez de encorajar só embaraça e humilha.
É então vendo o Portugal - Angola que noto um dos (senão o único) aspectos positivos desta obsessão: nunca tanto português se uniu por um só clube. Tal união só foi igualada pelo fracasso da selecção no jogo: 11 (10 visto o Ricardo pouco ter interferido no jogo) mecos movimentando-se, ou melhor, arrastando-se pelo relvado com um aparente pavor da bola... enfim...
Quantos anúncios teremos ainda que ver com os dotes dos jogadores nacionais para estes os aplicarem no verdadeiro relvado???
P.S. a imagem é só para verem que eu também apoio a selecção portuguesa...XD